Arquivo mensal: Novembro 2008

Breviário

A Igreja desde sempre tem adoptado os meios mais modernos para o anúncio da mensagem de Jesus. Os novos telefones são cada vez mais instrumentos com muitas potencialidades, os BlackBerry, o iPhone e outros do mesmo género tornam-se bons instrumentos para nós. Desde a possibilidade de consultar diversos sites a partir do telemóvel, surgem versões da bíblia, agendas litúrgicas e inclusive o breviário. Um programa para o iPhone e iPod Touch chama-se iBreviary. É pena estar só em Italiano.

Quanto às bíblias disponíveis é pena encontrarmos apenas a versão de João Ferreira de Almeida.

Faço um apelo aos capuchinhos para disponibilizarem a sua tradução neste formato. Não me importava de gastar 9 euros para ter a bíblia dos capuchinhos no meu iPhone. Com os novos modos de edição digital não deve ser difícil passar os textos para formatos móveis.

1º Domingo do Advento

Como é que sabemos que o Natal está a chegar? Porque ao nosso lado já se começa a sentir a agitação típica deste tempo: as ruas enchem-se de luzes, as montras começam a estar enfeitadas com motivos natalícios, há cada vez mais publicidade a brinquedos, presentes e outras coisas para gastar neste natal.

Mas também há outros sinais, que nem toda a gente percebe. Um desses sinais é o Tempo de Advento que começa neste domingo, também para nos preparar espiritualmente para acolhermos o Salvador. A liturgia deste primeiro Domingo do Advento convida-nos a equacionar a nossa caminhada pela história à luz da certeza de que “o Senhor vem” e apresenta aos crentes indicações concretas acerca da forma devem viver esse tempo de espera.

O profeta Isaías escreve num contexto de reconstrução do país e da cidade de Jerusalém, depois do regresso do exílio: o povo, que regressou sem nada e continua rodeado de inimigos, sente-se desanimado indiferente face a Deus e à Aliança. O Povo dirige-se ao Deus da história, pedindo-lhe que intervenha para salvar; e, uma vez que a desgraça é considerada castigo pelos pecados, o Povo confessa a culpa e pede perdão.

Deus é o “oleiro” e o seu Povo é o barro que o artista modela com amor e cuidado. A imagem serve, certamente, para definir o poder e o senhorio de Deus que pode modelar o seu Povo como bem lhe aprouver; mas, provavelmente, faz também alusão àquilo que o profeta espera de Deus: uma nova criação.

Só Deus é fonte de salvação e de redenção. Nós, por nós próprios, somos incapazes de superar essa rotina de indiferença, de egoísmo, de violência, de mentira, de injustiça que tantas vezes caracteriza a nossa caminhada pela vida. Deus, o nosso “Pai” e o nosso “redentor”, é sempre fiel às suas “obrigações” de amor e de justiça e está sempre disposto a oferecer-nos, gratuita e incondicionalmente, a salvação. A nós, resta-nos acolher o dom de Deus com humildade e com um coração agradecido.

A segunda leitura é o início da carta de S. Paulo ao Coríntios, que nos apresenta uma “acção de graças”, em clima de oração e de louvor, em que ele agradece a Deus pelos dons concedidos à comunidade cristã de Corinto, ao mesmo tempo que antecipa temas que vai depois desenvolver na carta.

Cada comunidade cristã é uma realidade continuamente enriquecida pela vida de Deus. Através dos seus dons, Deus vem continuamente ao encontro dos homens e manifesta-lhes o seu amor. É por isso que cada um de nós deve viver numa permanente atitude de escuta e de acolhimento desses dons para que sejamos cada vez mais fiéis ao Evangelho e ao projecto de Deus para nós.

O Evangelho situa-nos em Jerusalém, pouco antes da Paixão e Morte de Jesus. É o dia dos “ensinamentos” e das polémicas mais radicais com os líderes judaicos. No final desse dia, já no “Jardim das Oliveiras”, Jesus oferece a Pedro, Tiago, João e André um amplo e enigmático ensinamento, que ficou conhecido como o “discurso escatológico”. A missão que Jesus confia à sua comunidade não é uma missão fácil: está consciente de que os seus discípulos terão que enfrentar as dificuldades, as perseguições, as tentações que “o mundo” vai colocar no seu caminho, por isso precisam de estímulo e alento ao longo da história.

Estar “vigilante” significa assim cumprir, com coerência e sem meias tintas, os compromissos assumidos no dia do baptismo e ser um sinal vivo do amor e da bondade de Deus no mundo.

Banneux II

Já estão online algumas fotografias que tirei durante a minha viagem a Banneux, para participar no congresso da ANDDP.

Durante este tempo pudemos visitar a cidade de Aachen (Aix-la-Chapelle) onde Carlos magno foi Coroado e está o seu túmulo. Estive a Pironchamps, onde fomos (o pessoal de Fátima) visitar um pequenino santuário de Nossa Senhora de Fátima. Visitamos também a cidade de Liége, infelizmente numa tarde de Chuva, mas a visita à Colegiada de S. Bartolomeu valeu a pena, sobretudo pela pia baptismal do Séc. XII.

Galeria de Fotos.

O Poder do Serviço

Neste dia de Cristo Rei o que é que celebramos? O poder? Uma forma de ser?

Desde sempre as relações entre o poder e a religião foram muito íntimas. Ainda hoje podemos dizer que alguns dos maiores problemas da Igreja estão ligados a formas de poder.

Mesmo a divisão hierárquica da Igreja, ao estar centrada em relações de poder é imperfeita. A Igreja possui antes uma estrutura trinitária: Povo de Deus, Corpo de Cristo, Templo do Espírito Santo. Neste sentido o que importa é o serviço, que se revela nos ministérios e nos carismas existentes dentro de si.

É por isso que, na igreja, todos são importantes. E é por isso que à Igreja não se pode aplicar nenhuma das formas de regime político conhecido: democracia, ditadura, república, monarquia, etc. É essa diferença que celebramos hoje.

Deus pela boca do profeta Ezequiel, que escreveu durante o exílio da Babilónia, consola o povo dizendo: “Hei-de exercer a justiça entre as ovelhas, carneiros e cabritos”, significando assim que não faz excepções entre as diversas pessoas; todas têm o mesmo valor, porque cada uma é imagem de Deus, cada uma é criada individualmente por um desígnio de amor. Esta igualdade de condição também se manifesta na igualdade da forma de viver aquilo em que acredita: plena e empenhadamente, como um serviço.

Cristo é o primeiro a dar-se totalmente aos irmãos. Fez-se tudo para todos e a sua entrega foi total. O seu amor derrotou o mal, assim como a luz acaba com a escuridão. Ele foi o primeiro a vencer a morte, é por isso que S. Paulo escreve aos coríntios dizendo que Jesus “surgiu de entre os que morreram como os primeiros frutos da seara.”

Assim Ele é exemplo para todos nós, e é por Ele que seremos um dia restituídos à Vida, e assim Deus será tudo em todos, o Reino de Deus atinge a sua plenitude e completa-se a Criação.

Então de uma forma prática não podemos ficar sentados à espera que isto acabe para aparecer uma nova vida. Temos algo para fazer, à semelhança de Jesus: o nosso poder reside no Amor. Quando Jesus nos diz: “Na medida em que o fizerdes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” está a dizer também que todos somos seus irmãos e que não nos podemos descartar da nossa tarefa, mesmo sendo a mais humilde, ou a mais honrosa, porque o que conta é o amor com que fazemos essa tarefa.

Somos directamente responsáveis pela vida dos nossos irmãos. A nossa felicidade, e a felicidade do próprio mundo, reside na capacidade da entreajuda. Cada vez que vemos alguém que sofre temos o dever grave de ajudar esse nosso irmão. Se calhar é uma utopia tornar o mundo absolutamente justo, torná-lo um lugar onde reine a paz, o equilíbrio entre todos os homens, e com mundo onde vivem.

O nosso poder está no amor que é capaz de mover montanhas, de tornar como manteiga os corações de pedra. Um amor capaz de mudar aquilo que Deus não muda (nós mesmos) porque respeita absolutamente a liberdade que nos deu.

“Tive fome, e me destes de comer”

Banneux

Banneux.jpgEsta semana estive a participar no Congresso da Associação nacional dos Directores Diocesanos de Peregrinações de França. Este ano foi no Santuário de Nossa Senhora dos Pobres, em Banneux, que fica a cerca de 25 Km ao Sul de Liége. O Tema foi o sofrimento, baseado na frase de Nossa Senhora na Sua 5ª aparição em Banneux: “Vim para aliviar o sofrimento”.

33 Domingo Comum

Acomodação ou coerência?

O tempo em que vivemos está carregado de contradições.

Numa altura em que as associações (de estudantes, desportivas e culturais, de países, etc.) se vão multiplicando mais aumenta o individualismo e egoísmo: que se encontra nas novas igrejas (seitas) que se centram apenas na realização de milagres, de curas de criação do bem-estar pessoal; que se encontra na programação que a televisão nos apresenta, manipulando os nossos valores, tudo submetendo aos critérios comerciais; etc.

Quanto mais se apregoa a liberdade mais se procura limitar essa mesma liberdade das pessoas para salvaguardar a segurança desta sociedade estrutural em que vivemos. Lembremo-nos do que aconteceu com as restrições à liberdade pessoal criadas depois de 11 de Setembro do ano passado.

Quando mais se proclama a igualdade entre as pessoas, mais aparece a sua separação: aumento do racismo, contra todos aqueles que não pertencem ao nosso grupo, apesar de não sabermos muito bem qual é ele; a própria mulher que tanto lutou e continua a lutar por uma igualdade aparece cada vez mais como instrumento dos desejos do homem.

Exemplo destas situações é a doutrina do “politicamente correcto” que se vai impondo cada vez mais na nossa sociedade, sinal do seu desequilíbrio em que já nada é natural, mas tudo é uma imagem (virtual) que se vai criando.

Por isso na primeira leitura se diz que uma mulher de valor é mais preciosa do que as pérolas. Porque não é apenas uma fachada bonita para alegrar a vida dos homens, mas porque é uma pessoa com características próprias, complementares do homem. Nesse tempo o valor duma mulher estava no trabalho doméstico. Qual é hoje o real valor de uma mulher? Mesmo que seja doutora ou engenheira.

As contradições que viemos lembram-nos para estarmos sempre alerta. O tempo que temos é relativo por isso é sempre pouco para o que queremos. Mas devemos estar preparados, porque todos os impérios caíram quando a segurança de transformou em desleixo. S. Paulo diz que quando os ímpios disseram: “paz e segurança”, então é que súbita ruína cairá sobre eles e não poderão escapar.

No Evangelho Jesus conta-nos uma parábola para mostrar que é preciso progredir sempre nas coisas de Deus. Não se pode descansar com o que se tem pois isso é fugir à responsabilidade de fazer avançar o mundo. É por isso que aquele que escondeu o seu talento na terra ficará sem nada, porque teve medo.

Durante esta semana lembremo-nos de que o ser verdadeiro implica uma coerência com aquilo que acreditamos verdadeiramente Que não nos deixemos guiar apenas por aquilo que os outros fazem ou dizem, acomodando-nos ao que está na moda.

Ser cristão sempre significou viver numa certa insegurança, então nesta época de actividades radicais, vamos viver radicalmente a insegurança da nossa fé, sabendo que a corda que nos segura é o próprio Jesus Cristo.

Elogio do Lápis

Hoje republico no meu blogue uma crónica que escrevi para o MacNotícias em Maio do ano passado:

Como é que um ferrenho utilizador de mac, inclusive considerado fanático por alguns, faz, para um site dedicado ao mundo mac, uma primeira crónica com este título?
Será que tráz água no bico? Bico do lápis?
Ainda por cima o autor é alguém que se começou a interessar por estas coisas da informática pois facilitava a escrita: deixava de ser necessário fazer vários rascunhos, a edição era mais rápida, podia-se acrescentar texto em qualquer altura, em suma: a tarefa de escrever tornava-se mais fácil.
Com a entrada no curso Filosófico-Teológico e a necessidade de fazer trabalhos escritos para as diversas cadeiras do curso, o computador tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante na minha vida, e assim fui progredindo no curso, ao mesmo tempo que os computadores também se iam desenvolvendo, cada vez com mais capacidades, mas sempre com a função primária de editar texto.
Muitas páginas foram escritas no Classic II e depois no LC 475 com o Word 5.1, um processador de texto potente e fiável (afinal é possível elogiar alguma coisa proveniente da Micro$oft). O processo era sempre o mesmo: liam-se as obras de referência e depois mãos à obra consultando, sempre que tal era necessário, os livros que serviam de base ao trabalho, fosse ele de dogmática, exegese ou pastoral.
Os trabalhos eram feitos para apresentar por escrito aos professores, por isso o texto podia ter uma linguagem e estrutura densa e complexa. Nessa altura a Internet era uma coisa ainda distante, por isso não existia o famoso copy–paste. Mesmo que quiséssemos copiar alguma coisa, tinha de ser tudo dactilografado, o que implicava várias horas a escrever, normalmente uma página por hora. Mas pelo menos era mais fácil gerir as notas de rodapé, ir acrescentando parágrafos e citações à medida que o trabalho ia evoluindo, ir acrescentando cada vez mais coisas para chegar ao número de páginas pedidas pelos professores.
Esses tempos já lá vão. Agora os trabalhos são diferentes. A vida de pastor de uma comunidade católica exige novos modelos de trabalho, já não de reflexão intelectual pura mas mais de acção e de pregação. E apesar de actualmente ter um G5 e um iBook o lápis torna-se uma ferramenta muitíssimo importante.
Como pároco a oralidade torna-se fundamental, a clareza e simplicidade de expressão são fundamentais, porque numa homilia ou palestra, não podemos voltar atrás para ler de novo uma frase mais densa e complexa e perceber todo o seu significado.
Claro que a internet está omnipresente, é lá que encontro muita documentação que serve de base ao meu trabalho, seja uma encíclica do Papa seja um artigo de revista. Depois é aqui que entra o lápis: impresso o texto (não gosto de ler textos com mais de uma página no monitor) toca de sublinhar, tirar notas, acrescentar pensamentos conexos, e depois , em cartõezinhos ir escrevendo os tópicos da apresentação ou palestra. Não gosto de ter o texto completo, porque na altura da apresentação há sempre que dar espaço ao Espírito Santo (ou à improvisação).
Mesmo que a palestra não tenha suporte gráfico (noutra crónica poderei falar do keynote) gosto de ter as minhas notas organizadas de modo gráfico e esquemático: com setas, círculos, linhas, etc. Por isso é que o lápis se torna uma ferramenta tão boa. É versátil, tem uma escrita leve, apaga-se facilmente, o que permite ir mudando as coisas à medida que o pensamento vai fluindo e tem uma cor discreta. Podemos escrever num livro (é verdade: quase todos os meus livros de trabalho, mesmo a bíblia, estão cheios de sublinhados e notas à margem escritos a lápis) numa folha impressa, numa revista, que não estragamos os media em que escrevemos. O lápis é menos intrusivo que a caneta e é feito de carbono (BTW: leiam a National Geographic de Fevereiro, aquela revista de bordas amarelas).
Claro que agora não me limito ao lápis normal, uso mais uma lapiseira, ou porta-minas. Antes não gostava muito das lapiseiras porque tinham uma mina ou muito fina (0,5 mm) e dura, o que marcava demasiado o papel em que se escrevia, ou da mesma grossura que as minas dos lápis normais o que acabava por provocar traços demasiado grossos e pouco precisos. No início do ano encontrei a lapiseira ideal: da Faber-Castell, com 1 mm de grossura e macia quanto baste para fazer uma escrita precisa e leve.
No fim de contas os lápis são como os computadores: ferramentas que nos ajudam a fazer o nosso trabalho de uma maneira mais simples e eficaz, despertando a capacidade criativa e congregando as nossas potencialidades para que o mundo seja melhor.

S. João de Latrão

S. João de Latrão é a Sé da Diocese de Roma. Por isso a sua dedicação é celebrada em todo o mundo. Construída pelo imperador Constantino tornou-se simbolicamente a mãe de todas as Igrejas. Nesta festa, que tem precedência litúrgica, sobre os domingos, celebra-se sobretudo o Povo de Deus, como assembleia de convocados por Deus para construir um mundo melhor.

Diz a oração colecta deste dia:

“Senhor, que edificais o templo da vossa glória com pedras vivas e escolhidas, derramai sobre a Igreja os dons do Espírito santo, para que o vosso povo cresça cada vez mais na fé, esperança e caridade, até se transformar na Jerusalém celeste. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito santo.”

Obama

Aqui está uma das coisas que me faz olhar para os Estados Unidos da América com admiração.

Um país enorme e que por isso acaba por tornais mais visíveis os seus extremos vivenciais apresenta-nos coisas como esta:

“Yes we can. It was a creed written into the founding documents that declared the
destiny of a nation. Yes we can. It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail
toward freedom through the darkest of nights. Yes we can. It was sung by immigrants as they struck out from distant shores and
pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness. Yes we can. It was the call of workers who organized; women who reached for the
ballot; a President who chose the moon as our new frontier; and a King who took us to the mountaintop and pointed the way to the Promised Land. Yes we can to justice and equality. Yes we can to opportunity and
prosperity. Yes we can heal this nation. Yes we can repair this
world. Yes we can.”

Esta é a parte final do discurso que Obama fez depois de perder as primárias de New Hampshire.

Hojé é dia de eleições lá nos Estados Unidos. O que eu gostava é que os políticos cá em Portugal fossem capazes de ser assim, de se elevar dos jogos rasteiros e de de nos arrastar com eles em direcção às estrelas.

Textos Litúrgicos

O departamento para as celebrações do Sumo pontífice apresenta no site do vaticano uma colecção interessante de escritos sobre a liturgia embora poucos estejam disponíveis em língua portuguesa. Muitos deles são da autoria de Mons. Piero Marini, Mestre de Cerimónias do Papa João Paulo II. A secção em italiano está mais actualizada.

Direitos dos Animais

Vai por aí uma polémica entre o Paulo Rangel e os defensores dos direitos dos animais a propósito de uma entrevista que ele deu ao semanário SOL.

Só queria dar uma achega. Quando as eleites pensantes falam em direitos esquecem-se que ligados aos direitos também extão os deveres, e que uns não podem existir sem os outros.

Ora se os animais podem ser sujeitos de direitos, logicamente também podem ser sujeitos de deveres.

Como disse Paulo Rangel: há uma dimensão ontológica entre homens e animais, que os distingue e separa. Sendo todos criaturas de Deus, criados por um desígnio de amor, nós somos os únicos criados à Sua imagem e semelhança.

Ouvi por aí trazer o exemplo de S. Francisco de Assis. É certo que ele chamava irmãos aos animais, mas também chamava irmão e irmã ao vento e à chuva, à lua e ao sol e até à própria morte.Para quem não sabe esse texto chama-se “Cântico das criaturas” tem uma dimensão poética de louvor a Deus pela criação e foi escrito por ele em 1224, quase no fim da sua vida. E que eu saiba, nunca concedeu o hábito de franciscano a qualquer animal.

Sacrosantum Concilium

O concílio Vaticano segundo começa logo no nº 1 da Sacrossantum Concilium a dizer o seguinte:

“O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia.” (negrito meu)

A palavra participação surge 20 vezes. Nove vezes aparece a expressão participação activa. A palavra fiéis aparece 59 vezes.

Diz o nº 14 da mesma constituição:

“É desejo ardente na mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e activa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige e que é, por força do Baptismo, um direito e um dever do povo cristão, «raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido» (1 Ped. 2,9; cfr. 2, 4-5). Na reforma e incremento da sagrada Liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta plena e activa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão-de beber o espírito genuìnamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida educação.”

Lembro que a Sacrossantum Concilium não é um texto escrito por qualquer pessoa mas uma Constituição Conciliar, depois de aturada discussão, entre 22 de Outubro e 13 de Novembro, tendo sido feitas 328 intervenções orais e 625 intervenções escritas, e que foi aprovada por 2147 votos a favor, 4 contra e 1 nulo, e que tem o peso não apenas da figura do Santo Padre, mas de todos os Bispos da Igreja que aprovaram a reforma litúrgica.

Reforma esta que não caiu do céu de repente mas tinha sido já iniciada pelo Motu proprio Tra le sollecitudini de S. Pio X em 22 de Novembro de 1903, reforçada pela Encíclica Mediator Dei publicada pelo Papa Pio XII em 20 de Novembro de 1947.