O Gato

Era uma vez um mosteiro.

Os frades passavam o dia em meditação e oração. Um dia apareceu por lá um gato, atraído para a cozinha e despensa pelos ratos que lhe serviam de sustento.

Este novo habitante provocava nas suas caçadas um enorme banzé, atirando tachos e panelas ao chão, fazendo com que as frigideiras fizessem mais clangor que os címbalos da festa de fim-de-ano. Isto perturbava notavelmente a vida tranquila do convento, quebrava o ritmo da oração dos salmos da liturgia das horas. Os noviços, fum fum fum, fum fum fum, distraiam-se e perdiam-se nas tarefas.

O superior do mosteiro viu-se obrigado a chamar um dos frades para apanhar o gato e prendê-lo ao grande carvalho que existia no centro do Jardim. Assim, sempre que tocava o sino chamando os irmãos para a oração, esse frade apanhava o gato e prendia-o ao carvalho. Foi um sucesso: os cânticos, imperturbados, erguiam-se até aos céus, as vozes dos monges tornavam-se puras e límpidas, os noviços aprofundavam a sua fé e tornavam-se santos homens.

O superior acabou por morrer e os frades elegeram um novo superior, mas o gato continuava a ser preso ao carvalho para não perturbar a oração. Criou-se uma nova tarefa: o Apanhador e Atador do Gato (o AAGa). O gato acabou tabém por morrer. Foi necessário arranjar outro gato para caçar os ratos, e embora fosse mais cauteloso nas suas idas e vindas, continuava a ser apanhado e atado ao carvalho.

Passaram anos. Alguns séculos depois havia uma enorme biblioteca com livros enormes e pesados tratados de teologia e espiritualidade que explicavam aos frades a imprortância do gato atado ao carvalho, a simbologia do carvalho e do gato e da sua união. Havia regulamentos que definiam os requisitos para alguém se tornar AAGa, agora a posição mais honrada no mosteiro. A volta do jardim estavam os retratos dos gatos e AAGas que tornaram aquele mosteiro reconhecido em todo o universo. Grandes peregrinações se faziam a esse santo local.

Já não se fazem.

Agora o mosteiro está abandonado e em ruinas. Durante uma tempestade de inverno um relâmpago rachou aquele milenar carvalho ao meio. Ficaram sem lugar para atar o gato.

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