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Domingo de Ramos

Contra a corrente

Hossanas e glórias é o toda a gente deseja: ser notado no meio dos seus pares, ser aclamado como alguém com valor. Mas a vontade das multidões anda ao sabor do vento, de quem a conseguir atrair pelos sentimentos.

Um político, um desportista ou um artista tanto são adorados como deuses, como são rejeitados e espezinhados como lesmas. E nós também nos deixamos arrastar por essas modas, pela fama, nossa e dos outros: apoiamos aqueles que são apoiados e rejeitamos aqueles que os outros rejeitam. Quem escolhe de forma diferente da maioria das pessoas e apontado como alguém diferente.

No tempo de Jesus foi isso que aconteceu: as pessoas que o aclamaram como Messias, com hossanas quando ele entrou em Jerusalém facilmente esqueceram aquilo que tinham dito quando os chefes os levaram a desejar a sua morte. Tudo era espectáculo: tanto a aclamação daquele messias como depois a sua condenação e crucificação. O que eles queriam era estar felizes e satisfeitos sem que ninguém os incomodasse.

Mas Jesus era incómodo: porque os obrigava a sair da sua mediocridade, porque exigia que cada um fosse uma pessoa íntegra e autónoma, descobrindo em si os valores da vida e do amor.

Jesus sabia que essa aclamação, na entrada em Jerusalém, era temporária, sabia o que lhe iria acontecer, e apesar disso aceita a vontade do Pai. Tornando-se homem fez-se totalmente igual aos seus irmãos. Pela sua obediência cumpria a vontade de Seu Pai, sabendo que o seu amor pelos homens implicava o seu sacrifício de uma forma extrema. Foi por esta doação que Deus o exaltou ressuscitando-o, como nos diz S. Paulo na sua carta aos Filipenses. É esta a sua exaltação: a sua ressurreição, o vencer a morte, o único STOP ao qual todos os homens obedecem.

A confiança em Deus era grande, por isso podia dizer como o profeta Isaías: “O senhor Deus veio em meu auxílio, por isso não fiquei envergonhado.” É pelo sacrifício de Jesus que Ele se torna verdadeiramente o Messias, o salvador, por isso é que só depois da sua morte se diz pela boca do centurião: “Na verdade este homem era filho de Deus”. Realmente só então Jesus se tornou no verdadeiro Messias pois só então a sua obra ficou completa, atingindo assim o seu auge.

Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir connosco até ao fim dos tempos.

E nós, hoje, além de reconhecermos que Jesus é o Messias necessitamos de provar essa profissão de Fé pelas nossas obras. Senão somos como os judeus do tempo de Jesus, que O aclamaram por palavras, mas quando tiveram de tomar uma atitude optaram pela via mais fácil. Muitas vezes é necessário avançar contra a corrente, em vez de nos deixarmos ir na onda, com a confiança de que são precisas muitas pedras para fazer um dique que conduza a água para o sítio certo.

5º Domingo da Quaresma

Um brilho novo

Vamos, neste fim de semana em peregrinação ao Santuário de Fátima. Vamos juntar-nos, de todas as paróquias, de todos os cantos da diocese para celebrar a nossa fé no Senhor. Vamos encontrar-nos sob o regaço da Mãe do Céu. A ela queremos confiar todas as gerações: as crianças, os adolescentes, os jovens e adultos, os que sofrem, todas as vocações que estão a germinar, todos os corações nos quais o Senhor fala silenciosamente chamando ao dom de Si para o serviço de Deus e aos irmãos.

Diz o nosso bispo D. António: “A peregrinação diocesana é uma marcha solidária de um povo de peregrinos que caminham juntos ao encontro da Mãe do Bom Conselho para com ela renovarem a sua fé, fazerem a revisão de vida, saborearem a experiência viva daquela comunhão que constitui o coração da Igreja.

S. Paulo diz que para Ele tudo é lixo comparado com Jesus. Só no encontro, diário e pessoal com Cristo é que a vida ganha sentido. É que vale a pena aquilo que fazemos. Assim a ida a Fátima ganha um novo sentido: não vamos porque é hábito, porque é uma festa ou uma romaria. Vamos à procura da luz que possa iluminar o nosso caminho. Brilhe para todos a luz que há em nós. Mas que luz é essa? Isaías lembra-nos que o Senhor abriu um caminho de salvação, apagando o exército do faraó como um pavio. Agora ele abre-nos um novo caminho, uma caminho no meio do deserto da indiferença e do relativismo dos homens. Não nos podemos contentar com as histórias do passado, com as glórias de Deus e dos cristãos. Não podemos continuar a fazer apenas o que os antigos faziam.

Jesus faz essa distinção no evangelho deste domingo: o pecado é uma realidade comum a todas as pessoas, ninguém está livre disso, ninguém se pode julgar acima dessa realidade. E porque todos somos pecadores todos precisamos de nos converter, de continuar a alimentar a luz que nos foi dada pelo baptismo.

Esta nova luz tem de ser sinal da vida, da nossa vida, concreta, de cada dia. Não é a lei que nos guia. Isso diz Jesus e também S. Paulo. Apesar de a Lei ser cada vez mais o critério de acção dos homens, por isso é que vão surgindo cada vez mais leis, para regular toda a nossa vida, os homens vão-se afastando uns dos outros.

Jesus vem transformar a Lei, dando-lhe um novo sentido: a lei tem de nascer do coração de cada homem, não pode ser uma estrutura vinda do exterior. Os homens que queriam apedrejar a mulher acabaram por se ir embora quando interrogaram a sua própria consciência. Quem sabe se eles não teriam também responsabilidade no seu pecado.

Jesus olha-nos nos olhos, mas não é para nos acusar nem para nos castigar, mas sim para nos perdoar, para nos reconciliar com Ele: “vai e não tornes a pecar”. Continua a deixar-nos livres para escolhermos o nosso próprio caminho, mas dá-nos também o conhecimento das possibilidades que temos.

E a única resposta que honestamente podemos dar é o nosso esforço para a nossa transformação. Não nos podemos sentar à sombra da bananeira julgando que já temos tudo, que já não precisamos de mais nada. Cada dia somos desafiados a dar uma resposta aos que estão à nossa volta. Essa resposta é a luz que levamos para os outros, forte ou fraca não importa. Até os pirilampos iluminam o mundo.

4º Domingo da Quaresma

A casa

A vida é feita de mudanças, pequenas ou grandes. É feita do correr do tempo, da passagem das coisas. Quem não muda está morto, petrificado, não é nada. A mudança assume então vários aspectos, para melhor ou pior, dependendo do ponto de vista.

As leituras deste domingo falam-nos da mudança que sofreu o Povo de Deus quando finalmente chegou à Terra Prometida: deixaram de ser alimentados com o maná, que deixou de cair quando os frutos naturais da região começaram a ser cultivados e colhidos.

Os hebreus deixaram assim apenas de apanhar o que lhes caía do céu, dado por Deus. Eles mesmos começaram a luar pela vida, a cultivar com o seu esforço os alimentos para todos. Assim simbolizada a sua responsabilidade perante a terra dada por Deus, que eles tinham de cultivar. Aparentemente seria mais fácil que Deus continuasse a enviar-lhes o maná, mas Deus não criou o homem para ser um mero robot, sem iniciativa, algo que obedece maquinalmente, sem saber o que faz.

Cultivando a terra que Deus lhes deu os hebreus revelaram que um dos papéis mais importantes do homem é desenvolver o mundo que Deus lhe Deu. Mundo que é, ao mesmo tempo, dom e tarefa. Por isso é exigido ao Homem que não abandone esse mundo, que não fuja dele.

Para ajudar á festa vem S. Paulo dizer-nos que “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura.” porque é alguém que se descobriu a si mesmo, que descobriu o amor de Deus. O amor que nos maravilha e que nos torna capazes de aceitar viver numa casa que não foi construída por nós e que nos foi dada gratuitamente sem merecimento da nossa parte. E o que é que nos fazemos desta casa. Temos consciência da novidade que é vivermos lutando para alcançar aquilo que Deus nos quer dar.

Ou somos como o filho mais velho de que nos fala o Evangelho, que fica com inveja daquilo que o pai faz ao filho que regressa a casa depois de ter destruído a riqueza que o Pai lhe tinha dado. Olhamos mais para a justiça do que para a misericórdia, andamos sempre de pé atrás em relação aos nossos irmãos em vez de abrirmos os braços para os recebermos e acolhermos na família.

O filho mais velho seria ainda mais pobre que o irmão pródigo, porque vivia na mesquinhez da sua vida, não reparando para a felicidade que tinha ao partilhar da riqueza do pai, por viver em casa do Pai, uma casa que não reconhecia como sua porque não partilhava do amor do pai por toda a família. O filho mais velho nunca usa a palavra “Pai”, demonstra não ser um filho, mas um servidor, o pai é apenas um patrão. Assim é fácil rejeitar o irmão. Esse é o pecado de muitos de nós, cristãos: a espectativa da condenação dos pecadores nasce da convicção de que eles são uns espertalhões que vivem bem: por isso são invejados, criam ciúmes e a esperança de um castigo iminente, não percebendo que a vida dos pecadores é uma tragédia, plena de desespero e sem alegria.

Que a boa notícia trazida por Cristo não nos leve a fechar os olhos e esta luz clara e distinta que nos mostra que a casa é nossa, e somos nós que temos de cuidar dela. A vida não é uma tarefa acabada, mas é uma construção permanente e diária que lentamente se vai mostrando. Uma construção que não é formada por calhaus, mas que é formada por árvores vivas.

3º Domingo da Quaresma

Carapaças

O tempo da quaresma é uma época propícia para pensarmos sobre a vida que levamos. Vivemos rodeados por tanta coisa que nos esquecemos do que é verdadeiramente importante. No entanto temos consciência de que a vida é precária, que qualquer coisa nos pode deitar abaixo, nos pode magoar e mesmo destruir.

Por isso nos rodeamos de muita coisa para nos mantermos seguros e vivos. Vamos criando à nossa volta uma couraça que impede que sejamos atingidos, como as tartarugas. Mas essa carapaça vai-se tornando cada vez mais pesada que tal maneira que deixa de cumprir a sua função. Impede-nos de sermos verdadeiros e de caminhar pela estrada da vida. Ficamos como estátuas, no mesmo lugar, sem nos mexer, porque estamos bem no nosso cantinho que já conhecemos muito sobremaneira.

São estas seguranças artificiais que Deus nos convida a destruir neste domingo. Não precisamos disso, como nos diz S. Paulo: “Quem julga estar de pé tenha cuidado, para não cair.” O pecado do homem é deixar-se guiar pela vaidade e pelo orgulho. Mas isso é passageiro, facilmente é destruído: como o ferro atacado pela ferrugem ou a roupa pela traça.

O próprio Jesus Cristo hoje é particularmente duro: “Julgais que eram mais culpados que os outros? Se não vos arrependerdes morrereis todos da mesma maneira.” Esta dureza não é cega, sem sentido, trágica. Ela traz no seu coração a semente da felicidade. O arrependimento dos pecados, do nosso mal leva-nos a quebrar a nossa própria couraça, e a ficarmos livres para voar, como uma borboleta que na primavera sai da sua feia e rija crisálida para voar com as belas asas estendidas ao sol.

O que é que nos dá esta esperança? É a própria figura de Deus, aquele que é. Revelado a Moisés como o SER eternamente PRESENTE: “O Deus de vossos pais enviou-me a vós.” Um Deus que acompanha o seu povo, sofre com ele, alegra-se com ele. E quer que ele se liberte de todas as escravidões: não apenas trabalhar para os egípcios, mas sobretudo rejeitando o Deus da Alianç a para adorar os deuses da terra onde eram escravos.

Israel descobriu – e procurou dizer-nos isso também a nós – que, no plano de Deus, aquilo que oprime e destrói os homens não tem lugar; e que sempre que alguém luta para ser livre e feliz, Deus está com essa pessoa e age nela. Na libertação do Egipto, os israelitas – e, através deles, toda a humanidade – descobriram a realidade do Deus salvador e libertador.

Desde o início da sua pregação, Jesus apela à conversão, o que faz igualmente João Baptista. É mesmo para Jesus uma questão de vida ou de morte. A conversão não é mortífera, ela é fonte de vida, pois faz o homem voltar-se para Deus, que quer que ele viva. O homem é como a figueira plantada no meio de uma vinha: pode ser que, durante anos, não dê frutos… mas Deus, como o vinhateiro, tem paciência e continua a esperar nele. Deus vai mesmo mais longe, dá ao homem os meios para se converter. Jesus não apela somente à conversão, mas propõe ao homem o caminho a empreender para amar Deus e amar os seus irmãos. A paciência de Deus não é uma atitude passiva, mas uma solicitude para que o homem viva. Paciência e confiança estão ligadas: Deus crê no homem, crê que ele pode mudar a sua conduta passada, para se voltar para Aquele de quem se afastou.

2º Domingo da Quaresma

Transfiguração

As leituras deste domingo convidam-nos a reflectir sobre a nossa “transfiguração”, a nossa conversão à vida nova de Deus; nesse sentido, são-nos apresentadas algumas pistas.

A primeira leitura apresenta-nos Abraão, o modelo do crente. Abraão acreditou em Deus e, por isso, o Senhor considerou-o como justo. A fé de que aqui se fala traduz uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios de Deus; a justiça é um conceito relacional, que exprime um comportamento correcto no que diz respeito a uma relação comunitária existente: aqui, significa o reconhecimento de que Abraão teve um comportamento correcto na sua relação com Deus, ao confiar totalmente n’Ele e ao aceitar os seus planos sem qualquer dúvida ou discussão.

O Deus que se revela a Abraão é um Deus que se compromete com o homem e cujas promessas são garantidas, gratuitas e incondicionais. Diante disto, somos convidados a construir a nossa existência com serenidade e confiança, sabendo que nos meio das tempestades que agitam a nossa vida ele está lá, acompanhando-nos, amando-nos e sendo a rocha segura a que nos podemos agarrar quando tudo o resto falhou.

A segunda leitura convida-nos a renunciar a essa atitude de orgulho, de auto-suficiência e de triunfalismo, resultantes do cumprimento de ritos externos; a nossa transfiguração resulta de uma verdadeira conversão do coração, construída dia a dia sob o signo da cruz, isto é, do amor e da entrega da vida.

Considerar-se como alguém que já atingiu a meta da perfeição pela prática de alguns ritos externos (as práticas de jejum e abstinência), é orgulho e auto-suficiência: significa que ainda não percebemos onde está o essencial – na mudança do coração. Só a transformação radical do coração nos conduzirá a essa vida nova, transfigurada pela ressurreição.

O Evangelho apresenta-nos Jesus, o Filho amado de Deus, através de quem o Pai oferece aos homens uma proposta de aliança e de libertação. O Antigo Testamento (Lei e Profetas) e as figuras de Moisés e Elias apontam para Jesus e anunciam a salvação definitiva que, nele, irá acontecer. Essa libertação definitiva dar-se-á na cruz, quando Jesus cumprir integralmente o seu destino de entrega, de dom, de amor total. É esse o “novo êxodo”, o dia da libertação definitiva do Povo de Deus.

Os três discípulos que partilham a experiência da transfiguração, recusam-se a aceitar que o triunfo do projecto libertador do Pai passe pelo sofrimento e pela cruz. É no amor e no dom da vida que buscamos a vida nova aqui anunciada.

A experiência de Jesus obriga a continuar a obra que ele começou e a “regressar ao mundo” para fazer da vida um dom e uma entrega aos homens nossos irmãos. O catecismo de muitos de entre nós está bem distante, a nossa bagagem religiosa talvez esteja leve: eis a Quaresma, a ocasião para recuperar energias. Como? Trata-se de ir às fontes, às raízes, aos fundamentos! Esta fonte é Jesus Cristo. “Escutai-O”, diz a voz que se faz ouvir das nuvens: vinde beber a sua Palavra! Abrimos o Livro onde corre esta fonte de água viva? Será que ao lermos os Evangelhos – este ano o Evangelho de Lucas – abrimos os ouvidos e deixamo-nos pôr em questão pelo Mestre?

1º Domingo da Quaresma

Tentações

No início da Quaresma, a Palavra de Deus apela a repensar as nossas opções de vida e a tomar consciência dessas “tentações” que nos impedem de renascer para a vida nova, para a vida de Deus.

A primeira leitura convida-nos a eliminar os falsos deuses em quem às vezes apostamos tudo e a fazer de Deus a nossa referência fundamental. Alerta-nos, na mesma lógica, contra a tentação do orgulho e da auto-suficiência, que nos levam a caminhos de egoísmo e de desumanidade, de desgraça e de morte.

O gesto de oferecer os primeiros produtos da terra acompanhado de uma “confissão de fé” tem como objectivo último afirmar e reconhecer que essa Terra Boa onde Israel construiu a sua existência é um dom de Deus; e não só a terra, mas tudo o que cresce sobre ela, é produto do amor de Deus em favor do seu Povo. É isso que significavam e simbolizavam as primícias que o israelita depositava sobre o altar, por meio do sacerdote.

A segunda leitura convida-nos a prescindir de uma atitude arrogante e auto-suficiente em relação à salvação que Deus nos oferece: a salvação não é uma conquista nossa, mas um dom gratuito de Deus. É preciso, pois, “converter-se” a Jesus, isto é, reconhecê-lo como o “Senhor” e acolher no coração a salvação que, em Jesus, Deus nos propõe.

Foi a auto-suficiência dos judeus que os levou a desprezar a salvação de Deus, oferecida gratuitamente em Jesus Cristo. Os pagãos, ao contrário, com simplicidade e humildade, acolheram a proposta de salvação que Jesus trouxe.

Então, tudo estará perdido para os judeus? Não. Basta-lhes acolher Jesus como “o Senhor” e aceitar a sua condição de ressuscitado: isso significa aceitar que ele veio de Deus e que a proposta de salvação por ele apresentada tem o selo de Deus.

O que é decisivo é acolher a proposta de salvação que Deus faz através de Jesus e aderir a essa comunidade de irmãos, “justificados” pela bondade e pelo amor de Deus. Dessa forma nascerá um povo único, sem distinções de raça, cor ou estatuto social.

O Evangelho apresenta-nos uma catequese sobre as opções de Jesus. Lucas sugere que Jesus recusou radicalmente um caminho de materialismo, de poder, de êxito fácil, pois o plano de Deus não passava pelo egoísmo, mas pela partilha; não passava pelo autoritarismo, mas pelo serviço; não passava por manifestações espectaculares que impressionam as massas, mas por uma proposta de vida plena, apresentada com simplicidade e amor. É claro que é esse caminho que é sugerido aos que seguem Jesus.

Dentro de cada pessoa, existe o impulso de dominar, de ter autoridade, de prevalecer sobre os outros ou usar Deus ou os dons de Deus para brilhar, para dar espectáculo, para levar os outros a admirar-nos e a bater-nos palmas.. Por isso – às vezes na Igreja – os pobres, os débeis, os humildes têm de suportar atitudes de prepotência, de autoritarismo, de intolerância, de abuso. A catequese de hoje sugere que este “caminho” é diabólico e não tem nada a ver com o serviço simples e humilde que Jesus propôs nas suas palavras e nos seus gestos.

3º Domingo do Tempo Comum

Raio de Sol

Aquilo que distingue um cristão de um não crente é a forma como ele enfrenta os problemas que lhe aparecem no dia a dia. Um cristão tem os mesmos problemas de todos os homens (às vezes até parece que são maiores) mas enfrenta-os de um forma bastante diferente, porque nele há uma força interior que o leva a ultrapassar essas dificuldades.

Os cristãos têm a consciência de que pertencem a um mesmo corpo, que é a Igreja, feita de todos os baptizados que vivem a sua fé; Igreja que tem como cabeça Jesus Cristo, formando assim o corpo místico de Jesus.

Assim o facto de se pertencer ao mesmo corpo leva-nos a interessarmo-nos pelo bem estar daqueles nossos irmãos que nos rodeiam: alegramo-nos quando eles se alegram, entristecemo-nos quando se entristecem como nos diz S. Paulo na primeira carta que escreveu aos Coríntios: Se um membro sofre todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele.

Mas esta alegria não é automática, é necessário partilhar verdadeiramente o Espírito que habita em todos, Espírito de amor que nasce do Amor entre o Pai e o Filho. Na verdade um cristão precisa de praticar a união entre todos os membros da Igreja praticando a união com o Pai, que é o mesmo para todos. Por isso dizemos todos os domingos. “Pai nosso”.

É por isso que o domingo é o dia da festa por excelência de todos os cristãos, porque nesse dia celebramos de um modo especial os mistérios da nossa libertação do pecado e da morte. Então podemos dizer como Neemias e Esdras: “Hoje é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis.” Porque o Espírito Santo está connosco e nos diz que os problemas são passageiros; que a força de Deus e a confiança n’Ele nos dão força para nos libertarmos das cadeias que nos prendem.

É esta a mensagem central do Evangelho deste domingo: “O espírito do senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres.” Jesus diz simplesmente: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem das escrituras”.

Esta passagem continua hoje a cumprir-se, porque há muita gente que deixa que o Espírito actue nas suas pessoas e que vão por esse mundo fora anunciar a Boa Nova: aos pobres, aos infelizes, aos doentes, aos pecadores. Para que todos se possam verdadeiramente alegrar. Mas com uma alegria sobrenatural que enche a nossa alma de bem estar, de paz. E não uma alegria meramente externa que facilmente cai em desespero e ódio contra aqueles que nos rodeiam.

É por nós que Jesus age para cumprir a promessa divina. Dá-nos o seu Espírito para que o nosso coração se liberte dos seus egoísmos, para que os outros não se sintam mal no nosso coração, para que levemos aos pobres o apoio da nossa ajuda e da nossa partilha, aos cegos a luz da nossa amizade, para que hoje seja um dia de felicidade para aqueles e aquelas que encontrarmos. É a nossa missão de cristãos: que a Boa Nova tome corpo na nossa vida, para que a Palavra de Deus seja viva hoje!

Que o único Senhor, que deu a todos nós os mesmo Espírito, nos faça mais conscientes de que somos um único corpo, que tem de zelar pela felicidade mútua e verdadeira. Abandonemos as nossas guerrinhas pessoais e façamos festa, pois o Senhor ressuscitou. E com a sua ressurreição deu-nos a vida, que é a melhor razão para a alegria.

Festa do Baptismo do Senhor – Ano C

Água da vida

Neste dia em que celebramos o baptismo do Senhor celebramos ao mesmo tempo a revelação de Deus como pai misericordioso, quando se ouve a sua voz depois do baptismo de Jesus: “Tu és o meu filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência.” E estas palavras continuam a ter o mesmo significado para todos aqueles que se baptizam ainda hoje. Deus continua a revelar o seu amor aos homens de hoje, mesmo que eles pareçam cada vez mais afastados do Seu amor.

Este é o desafio que somos convidados a viver neste tempo: viver a fraternidade que nos foi transmitida por Jesus. Reparemos nas palavras de S. Pedro na casa de Cornélio, o primeiro pagão a receber o baptismo: “Deus não faz acepção de pessoas.” Com esta atitude a Igreja nascente tornou-se verdadeiramente universal, aberta a todas as pessoas, independentemente da sua raça e do seu nascimento.

Talvez seja tempo de fazermos um exame de consciência sobre a forma como estamos a dar testemunho da nossa fé, como estamos a anunciar o baptismo de salvação aos homens do mundo de hoje. Dizemos todos os dias que Deus veio salvar todos os homens, que ele quer que todos façam parte da sua família. Mas quais são as consequências para a nossa vida concreta?

Deus na sua bondade continua a chamar a todos para pertencerem a esta família divina, como ouvimos na primeira leitura: “Fui eu o Senhor que te chamei.” E para quê? Para que é que Deus se dá ao “trabalho” de nos chamar? De querer que sejamos nós a ter nas mãos o destino do mundo?

Porque somos da sua família, somo seus filhos, e Ele não é egoísta para guardar só para si a tarefa de tornar, recriar, as coisas boas, incluindo-nos a nós mesmos.

“Não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que fumega.” Diz o profeta Isaías. Esta frase deve-nos levar a pensar que não podemos fechar a torneira desta fonte do baptismo aos que têm sede, mesmo que parte da água escorra para a terra, alguma se aproveita. Se muitas pessoas não estão preparadas para receber o baptismo, ou para baptizar os seus filhos temos de encontrar uma maneira de os tornar conscientes disso, de os levar a descobrir este enlevo que Deus tem para cada um de nós. Não basta dizer não, temos de revelar o sentido do baptismo às pessoas. Mas isso só acontecerá quando tivermos plena consciência das nossas próprias limitações e que o verdadeiro trabalho da conversão dos corações é realizado pela graça de Deus.

Jesus foi baptizado já como adulto e consciente da sua tarefa no mundo: anunciar o Reino de Deus aos homens. Nós fomos baptizados em criança, sem termos consciência da nossa responsabilidade. Mas à medida que vamos crescendo também vamos tomando consciência do que somos e daquilo a que somos chamados. Assim como Jesus foi tomando consciência da sua missão ao longo do tempo.

Vamos então, nós que já fomos baptizados, tomar consciência da nossa missão no mundo, que é no fundo a mesma de Jesus: levar a todos os homens o reino de Deus, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do espírito Santo.

Solenidade da Epifania do Senhor – Ano C

Os Reis Magos

Celebramos neste domingo a Epifania de Jesus, que tradicionalmente é conhecido como o Dia de Reis, o dia em que terminam as festividades natalícias.

Este nome, epifania, significa revelação, e na verdade, o facto de três sábios de fora de Israel terem vindo adorar o Deus Menino é sinal de que o Messias é verdadeiramente universal. Esta noção da universalidade do Messias já tinha sido anunciada por Isaías quando escreve “As nações caminharão em direcção à tua luz” referindo-se a Jerusalém, como a cidade do futuro para a congregação de todos os homens porque nela está o Messias, a verdadeira luz do mundo.

De facto para que haja uma revelação tem de existir luz, que possa mostrar, iluminar o que está velado, escondido. Mais ainda: a revelação de que nos fala a Palavra de Deus não é apenas destinada a alguns eleitos, iluminados, mas é para todos, como diz S. Paulo aos Efésios: “Os gentios são admitidos à mesma herança”. Todos são chamados a conhecer e a receber a salvação. É por isso que nós próprios podemos celebrar o Natal, porque recebemos esta herança de conhecer o mistério de Deus e da Sua encarnação.

No entanto são necessárias algumas condições para tornar real e eficaz essa salvação. Os Reis Magos tiveram de saber ler os sinais do céu para saber que o rei do mundo, o rei universal, tinha nascido; tiveram de percorrer um longo e perigoso caminho para encontrar esse rei. É isso que Deus nos propõe: perceber os sinais dos tempos, sobretudo nesta época cheia de desafios não apenas para os cristãos mas para todos os homens, uma época em que o utilitarismo e o egoísmo, disfarçados de liberalismo (a nova doutrina reguladora da vida das pessoas) destroem os laços da comunidade e da sociedade, e até mesmo da civilização, único e verdadeiro espaço da sobrevivência humana.

Passados dois mil anos de fé cristã qual o caminho que temos de percorrer?

Certamente o nosso caminho é maior do que o dos Reis Magos, certamente tem também as suas armadilhas, mesmo de pessoas aparentemente bem intencionadas, como parecia ser Herodes, mas não podemos perder de vista a estrela, a luz que nos guia: Jesus, humilde e pobre, mas que foi e continua a ser a razão de viver de tantas pessoas, que por ele vão arriscando a vida, para que a luz continue a brilhar no mundo.

Hoje a Epifania de Jesus faz-se por nós próprios, somos nós a revelação do messias, somos nós a fotografia de Jesus, nem sempre uma cópia fiel do que ele é, muitas vezes somos um mero esboço, mas não podemos deixar de apresentar os traços fundamentais do seu retrato. E esses traços podem ser resumidos a dois: um traço vertical (que nos liga a deus) e outro horizontal (que nos liga como membros de uma mesma família), uma cruz, a nossa cruz, que levamos erguida para mostrar o mais, o positivo que é viver com Jesus em nós.

Quando encontraram o menino os magos ofereceram ouro, incenso e mirra, símbolos da realeza, divindade e humanidade de Jesus. E nós, o que oferecemos a Deus? Se tudo vem dele a única coisa que podemos dar-lhe é o nosso coração, um lugar onde ele pode residir, um lugar onde pode brilhar e assim pouco a pouco afastar as trevas que inundam o nosso mundo.

Festa da Sagrada Família – Ano C

Uma família

Apesar da família ser o fundamento das sociedades: é nela que nascem novas vidas, é por meio dela que são formadas as gerações que continuam o trabalho iniciado há muitos anos atrás. No entanto hoje parece que esta instituição está prestes a desaparecer, pelo menos como a conhecemos: aumentam as tentativas de tornar como coisas normais e naturais as famílias monoparentais, ou constituídas por 2 elementos do mesmo sexo, provocando-se assim um desequilíbrio na educação dos filhos que podem ficar limitados por visões demasiado orientadas da vida.
Neste domingo, que tem por tema a família somos convidados a reflectir sobre o que nos dizem as leituras: o livro de Ben-Sirá, escrito 200 anos antes de Cristo é uma colectânea de conselhos da época, diz-nos que devemos honrar o pai e a mãe com a mesma importância como se fossem o próprio Deus. De facto os pais e as mães são os continuadores da obra criadora de Deus.

Mas a vida em família não é fácil: há sempre muitos problemas. Porque todas as pessoas são diferentes. Porque os pais não querem que os seus filhos cometam os erros que eles cometeram. Porque têm medo que façam asneiras que eles nunca fizeram. Os filhos querem ser independentes mas continuam a necessitar da família para os amparar na maior parte dos dias. O marido e a mulher, que prometeram fidelidade um ao outro, perdem o entusiasmo que tinham no princípio da vida de casados, porque deixam que a rotina se instale.

Por isso aparece S. Paulo a dizer-nos para nos suportarmos uns aos outros no amor. Porque só assim seguimos o exemplo de Cristo, que nos perdoou as nossas faltas. O amor entre os homens atinge o seu nível mais alto na família porque aí as pessoas estão mais próximas umas das outras, têm uma mesma herança, conhecem-se melhor, no bem e no mal.

Viver “em Cristo” implica fazer do amor a nossa referência fundamental e deixar que ele se manifeste em gestos concretos de bondade, de perdão, de compreensão, de respeito pelo outro, de partilha, de serviço. A nossa primeira responsabilidade vai para com aqueles que connosco partilham, de forma mais chegada, a vida do dia a dia (a nossa família). Esse amor, que deve revestir-nos sempre, traduz-se numa atenção contínua àquele que está ao nosso lado, às suas necessidades e preocupações, às suas alegrias e tristezas.

Mas não há famílias perfeitas, assim como não há homens perfeitos. Por isso nos deparamos com o Evangelho, que nos conta que Jesus, quando foi a primeira vez a Jerusalém ficou perdido três dias no templo, e quando os pais o encontraram a sua mãe censurou-o por os ter abandonado sem lhes dizer nada, mas com a resposta do filho entenderam que era tempo do seu filho descobrir o seu caminho, a sua vocação. E no entanto: “Jesus desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhe submisso.”

Os problemas só têm importância se nós os guardarmos para nós. A Família existe para que aquilo que nos apoquenta possa ser partilhado sem constrangimentos pois confiamos na Família. Vamos pois construir famílias melhores, de onde nasçam melhores pessoas, onde todos os seus membros se possam desenvolver, seguindo o seu próprio caminho e não aquele que nós gostaríamos de ter seguido e não podemos ou não conseguimos.

4º Domingo do Advento – Ano C

Paz? Amor?

Toda a gente diz que o Natal é uma época de paz e de amor. Mas será que é mesmo assim? Como é que as pessoas vivem os dias que antecedem esta festa: a correr para comprar os presentes para todos os membros da família, e não só; a correr para adquirir as últimas novidades; a correr para participar nas festas da empresa, da escola, de caridade, dos diversos familiares. Além disso somos assaltados por centenas de luzes e apelos à festa, envolvidos numa nuvem de vermelho, verde e branco.

Por vezes apetece-me nesta altura partir para uma ilha deserta, com um pequeno grupo de amigos que possa estar em paz, liberto das solicitações da nossa cultura moderna.

Este ano o dia de natal é logo a seguir ao 4º Domingo do advento, assim antes do grande dia a Palavra de Deus fala-nos de humildade, de simplicidade: ouvimos o profeta Miqueias dar a pista que permitirá aos Reis Magos descobrir onde podem encontrar o Menino que nasceu para os homens. Belém, a cidade da tribo mais pequena de Israel foi escolhida por isso mesmo: porque só na simplicidade se pode acolher o Deus Menino, ele que será a Paz. Por isso não poderia nascer das tribos mais poderosas, que sentem logo a atracção pelo governo das coisas da terra. Mas Deus prefere o coração dos homens, e as relações de amor que se vão construindo entre eles.

Essa relação de amor existente é o que leva Nossa Senhora a abandonar a sua casa para ir ajudar a sua prima Isabel, que estava grávida de João, que mais tarde seria conhecido como o Baptista. A mãe de Deus viajou incógnita, sem séquito, sem louvores, apesar de já trazer dentro de si o Filho de Deus, que preferiu chamar-se a si próprio “Filho do Homem”, fazendo-se tudo com todos.

Em toda esta história vemos que os homens quando se deixam guiar por Deus, quando reconhecem que a sua existência só tem verdadeiro sentido quando se faz a vontade do Criador, acabam por se elevar da própria e mera humanidade.

Então em vez de andarmos a correr para apresentar o Natal mais bonito àqueles que nos rodeiam, vamos procurar acolher este menino que nasce para todos os homens. Que possamos dizer como Isabel: “Donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu salvador?”

Na verdade nós não merecemos o Bem que recebemos, porque somos muito pequeninos e porque tantas vezes não queremos aceitar despojarmo-nos daquilo que é acessório: como os pinheiros de Natal, muito bonitos, muito ricos, mas que são postos no lixo depois do dia de Reis.

Lembremo-nos que não basta cumprir as normas se nos esquecemos aquilo que está verdadeiramente na origem das coisas: o Natal não são as festas, as prendas, os presépio e pinheiros. O Natal é imitarmos Jesus Cristo que nasceu humilde e pequenino para fazer o bem.

É isso que anuncia João no início do seu evangelho lido no dia de Natal: um Deus que se faz carne e habitou entre nós, suprema originalidade de Deus. A incarnação de Jesus significa a oferta que Deus faz à humanidade da vida em plenitude. Toda a obra de Jesus consistirá em capacitar o homem para a vida nova, a vida plena, a fim de que ele possa realizar em si mesmo o projecto de Deus – a semelhança com o Pai, o Amor tornado existência pessoal.

3º Domingo do Advento – ano C

Alegria sem heróis

As pessoas dizem que nos dias de hoje já não há heróis. Que já não há ninguém que consiga realizar feitos gloriosos, como aqueles que os nossos antepassados conseguiram. Mas, se reparamos bem, ainda há muita gente que faz coisas extraordinárias, que ultrapassam a memória dos homens. Mas isso só se pode comprovar daqui a umas centenas de anos ou, pelo menos, daqui a umas dezenas de anos.

Mas nem só de heróis vive a história. Ela vive sobretudo daqueles personagens humildes que ajudam a construir o em que vivemos: Nuno Álvares Pereira não teria vencido a batalha de Aljubarrota se não fossem as centenas de soldados desconhecidos que lutaram ao seu lado; as grandes catedrais góticas foram construídas por homens humildes, muitos dos quais não chegaram a ver a sua obra acabada. Mas houve sempre algo que os uniu e que lhes deu forças para suplantarem as dificuldades das suas tarefas.

Também nesta época do advento esperamos alguém, que é a razão do nosso actuar. Como o diz na primeira leitura o profeta Sofonias: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, como herói que te vem salvar.” O profeta diz isto para encorajar os judeus seus contemporâneos a lutarem contra os adversários, mantendo a fidelidade à sua Fé e à sua Lei, a manterem-se fieis à Aliança realizada com Deus.

Tem de haver sempre alguém que caminhe à frente de um grupo conduzindo-o ao seu destino. Esse é também membro do grupo, caminha com ele: são os que assim fazem que são os verdadeiros heróis.

É também isso que João Baptista vem afirmar aos seus contemporâneos, mesmo que o faça de uma maneira estranha para o tempo. No Evangelho deste dia vemos João Baptista, com muitas e diversas exortações, a anunciar ao povo a Boa Nova: a chegada do Messias por esses dias, que iria libertar os pobres das suas prisões não apenas físicas, mas sobretudo sociais.

Não são os pecadores que devem temer a vinda do Cristo Salvador e Redentor, mas sim o próprio pecado do qual se anuncia a libertação. Os pecadores devem alegrar-se porque para eles chegou a libertação daquela negra realidade que os mantém escravos.

Por isso a chegada do Messias, do Salvador, é razão suficiente para nos alegrarmos, pois ele nos mostrou que é possível vencer os verdadeiros inimigos: o pecado e a morte. Mas como diz S. Paulo na segunda leitura não basta confiar no senhor pois Ele não faz o trabalho por nós, é necessário a oração, para descobrirmos aquilo de que necessitamos verdadeiramente. E também para saber o que é que precisamos de fazer para ajudarmos verdadeiramente os nossos irmãos.

Neste domingo de alegria vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance por transmitirmos alegria aos nossos irmãos: a alegria de uma palavra amiga, de um conforto, de coisas pequenas mas verdadeiramente humanas. Para que no meio da agitação diária não nos sintamos perdidos, anónimos, solitários mas personagens importante, fundamentais e necessários da história, mesmo sem nos armarmos em heróis. Deus apenas nos pede que façamos qualquer coisa em concreto para manifestar ais justiça, mais generosidade, mais paz…

2º Domingo do Advento – Ano C

Ser Pioneiro

As actividades radicais estão na moda, fazer coisas que mais ninguém faz, ou de dificilmente possam ser feitas. Descobertos quase todos os territórios do mundo agora o homem procura traçar novas veredas, por cainhos cada vez mais novos: ou indo à conquista de outros planetas como Marte, ou procurando decifrar aquilo que se esconde no mais íntimo dos seres, como o famoso projecto da descodificação do genoma humano.

Estes novos pioneiros já não são meros aventureiros, mas são gente que arrisca sobretudo o seu modo de vida a sua reputação para percorrer caminhos não abertos, para mostrar aos homens que há coisas que são possíveis.

Os caminhos do mundo, da ciência e da tecnologia começam a estar abertos, mas não são suficientes. Não basta a ciência e a tecnologia, é necessário abrir os caminhos do coração, do espírito humano. Esses caminhos são os mais difíceis de percorrer porque não há um mapa que se possa seguir e que sirva para toda a gente. cada qual tem de traçar o seu rimo e seguir esse caminho.

No entanto temos pistas que servem para todos os homens. Pistas dadas por outros homens, que arriscaram seguir por esses caminhos novos. É por isso que neste domingo encontramos um homem a pregar no deserto. E o que é que ele diz? “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”

Então temos de abrir o caminho para os outros passarem? Sim. Temos de abrir caminhos para que o Amor possa chegar até nós. O Amor que se fez homem para nos ensinar a caminhar no meio da confusão da vida, navegando, como os primeiros marinheiros, guiados pelas estrelas que no céu nos apontam o rumo certo.

Não estamos sozinhos quando abrimos caminho em direcção aos outros. Nem somos nós que tomamos a iniciativa. Outro houve que despertou em nós o desejo de avançar, de caminhar por um caminho novo diferente daquele que seria o mais lógico.

É esta a esperança que nos é dada neste domingo por Paulo, que já o dizia aos cristão de Filipos: “Aquele que começou em vós obra tão boa há-de levá-la a bom termo.” Não podemos desistir porque sabemos que alguém nos acompanha, que nos dá não só a coragem para vencer todos os obstáculos mas também a força para caminhar, mesmo que não vejamos resultados imediatos.

Mas as grandes obras são feitas também com a ajuda de umas carradas valentes de paciência, porque já Baruc dizia aos judeus: “Deus conduzirá Israel na alegria, à luz da sua glória, com a misericórdia e a justiça que d’Ele vêm.”
Jesus foi o primeiro pioneiro do coração, porque foi ele que nos mostrou que o nosso caminho passa verdadeiramente pela felicidade e salvação dos outros, e que só chegamos à descoberta de nós mesmos se descobrimos o nosso próximo seguindo o exemplo de Deus: com misericórdia e justiça, a mesma justiça que Deus teve para connosco, perdoando-nos, dando-nos a mão para que estivéssemos com ele.

Neste Advento vamos abrir os caminhos da humanidade que há em nós, descobrindo que, sejam quais forem as diferenças entre nós, o coração é o mesmo, como anunciava uma marca de roupa há algum tempo.