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Raríssimas

Lembro-me que nos meus primeiros tempos de padre era Vigário Paroquial numa freguesia suburbana e que muitas vezes nos apareciam jovens dotados a pedir dinheiro para o bilhete de autocarro para Lisboa ou Coimbra. Eu nunca sabia se o dinheiro seria mesmo usado para o bilhete ou para a dose diária de droga, então tinha 3 soluções: não lhe dava nada, dava-lhe o dinheiro ou ia com ele comprar o bilhete.

Quando era pequeno costumávamos dizer «quem dá e volta a tirar ao inferno vai parar» querendo dizer que se demos algo a alguém isso já não deixa de ser nosso, passa a ser propriedade do outro e por isso eu já não tenho direito aquilo que dei. Já não é meu, é do outro, e se é do outro ele tem a liberdade de dispor dos seus bens da maneira que entender melhor. Pretender que os outros usem os seus bens como eu quero é a negação do direito de propriedade.

Um outro ditado da minha terra diz «Quem não tem padrinhos morre mouro.» Todos concordamos que um sociedade vive precisamente de relações, e quando essas relações são mais próximas todos crescem: «Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara».

Tudo isto a propósito da presidente da Associação Raríssimas, Paula Brito da Costa, que terá comprado um vestido por 200 euros com o cartão de crédito da Associação, e que recebia um ordenado de 3000. Daquilo que vi ser acusada não vi mais do que aquilo que habitualmente é dado a um gestor de topo de uma empresa. Mas é uma IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social) e não uma empresa? Mas qual a diferença? Apenas que por ser IPSS o seu objectivo não é dar lucro, mas prestar um serviço social. No entanto tem empregados, paga impostos, tem património, tem órgãos directivos que aprovam planos de actividades, orçamentos, relatórios de contas e actividade. Não foi a direcção que aprovou que a Srª. Paula da Costa fosse, além da presidente, também directora geral da Casa do Marcos? Não foi a direcção que lhe concedeu cartão de crédito?

O dinheiro que o Estado deu à Raríssimas é uma oferta, uma doação ou uma contratação de serviços. Mesmo que seja uma contratação de serviço o Estado só tem que se preocupar se o serviço é bem prestado. E parece que isso nunca foi nem é problema na Raríssimas.

E veja-se o que aconteceu com o caso da má qualidade das refeições nas cantinas escolares, obviamente um crime porque o serviço não corresponde minimamente ao que foi contratualizado e ninguém se importou ou importa com isso, nenhum secretário de estado ou ministro se demitiu por causa disso. Porquê?

Acho que é um problema da mesquinhez e inveja dos portugueses: onde se admite que uma simples vendedora num quiosque de repente apareça ao lado da Rainha Letícia, rodeada de primeiras damas e ministros e secretários de estado. O que é que eu tenho que ver com aquilo que se passa nas casas dos outros? É doentio este voyeurismo dos portugueses, se se indignam pelo facebook e murmuram e protestam pelas costas mas diante das pessoas é só beijinhos e abraços.

A Sr.ª Paula da Costa criou algo que pudesse dar ao doentes com doenças raras aquilo que o seu filho nunca teve, usou os meios que toda a gente usa para levar essa obra adiante: mecenato, subsídios do estado, ofertas de pessoas, usou uma rede de relações que lhe permitiu ultrapassas as teias burocráticas.

Criou algo que supostamente num Estado Social seria responsabilidade desse mesmo Estado mas para o qual não tem os meios necessários. E nunca se têm os meios necessários porque os recursos são limitados e as necessidades humanas ilimitadas. E é irracional pensar que se as pessoas não teem dinheiro para alguma coisa o estado tem, porque o dinheiro do estado é o dinheiro das pessoas, que o estada arrecada.

Editado a 18 dez 2017 – Substituído Privada por Particular na definição de IPSS